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Educação para a transição: estamos cuidando de quem educa?

m2bambiental
19 de fev.
3 min de leitura

Nos últimos anos, o letramento climático e ambiental deixou de ser um tema periférico para se tornar uma exigência explícita nas políticas educacionais. A urgência é real. A crise climática já atravessa o cotidiano, os territórios e as decisões públicas e privadas.


Mas há uma pergunta que ainda fazemos pouco: como professores, docentes e estudantes estão se sentindo diante dessa nova responsabilidade?


Falo a partir de muitas conversas com educadores, gestores e alunos, em contextos formais e informais de ensino. O que aparece com frequência não é resistência ao tema, e sim insegurança.


O que mudou, afinal?

Letramento climático e ambiental não é apenas aprender conceitos sobre clima, biodiversidade ou sustentabilidade. Trata-se da capacidade de compreender sistemas complexos, relações entre sociedade e natureza, riscos, incertezas e escolhas éticas associadas ao desenvolvimento.


No Brasil, esse movimento aparece de forma clara na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que incorpora a Educação Ambiental de forma transversal e nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental, alinhadas à UNESCO, que desde 2021 reforça a educação climática como eixo estruturante para os sistemas educacionais.


Na prática, espera-se que professores abordem mudanças climáticas, justiça socioambiental, riscos, adaptação e transição ecológica em sala de aula de forma transversal, porém muitas vezes sem terem recebido formação específica para isso ou, ainda, sem o apoio necessário.


Afinal, este é um tema que traz incertezas sobre o futuro, medos sobre o presente e, em muitos casos, pode nos paralisar. Não é isso o que queremos. Precisamos de crianças e jovens preparados para interceder, participar e exercer sua cidadania em busca de soluções práticas e de políticas públicas que reflitam seus direitos.


Acredito que são estas novas mentes que podem trazer respostas relevantes para o presente e para o futuro. E a principal ferramenta para isso continua sendo a escola e seus professores.


Quando olhamos para a realidade das escolas brasileiras, a questão ganha mais profundidade. Pesquisas do Instituto Alana sobre justiça climática e racismo ambiental mostram que crianças e adolescentes que vivem em territórios vulnerabilizados, com menos acesso a áreas verdes, maior exposição a poluição, enchentes ou ilhas de calor, enfrentam também desigualdades estruturais que atravessam o ambiente educacional.


Educação climática, nesse contexto, não pode ser neutra. Ela precisa considerar justiça climática, racismo ambiental e as condições concretas das comunidades escolares. Caso contrário, corre-se o risco de reproduzir as desigualdades que deveria ajudar a enfrentar.


 O que as pesquisas revelam sobre quem está na linha de frente.


Estudos internacionais apontam um paradoxo preocupante. Pesquisas coordenadas pela UNESCO e pela OCDE mostram que a maioria dos professores reconhece a importância da educação climática, mas declara não se sentir suficientemente preparada para ensinar o tema com profundidade, segurança e contextualização.


Entre os principais desafios relatados estão:

  • falta de formação continuada específica

  • pouco tempo para atualização e planejamento

  • escassez de materiais pedagógicos contextualizados

  • medo de simplificar excessivamente ou, ao contrário, gerar ansiedade nos alunos


Entre estudantes, especialmente adolescentes e jovens, cresce também o fenômeno da ecoansiedade, já documentado em pesquisas publicadas em periódicos científicos como The Lancet Planetary Health. Isso exige sensibilidade pedagógica, não apenas domínio técnico.


O risco de tratar a transição como mais um conteúdo

Clima e meio ambiente não são temas neutros. Envolvem conflitos, valores, territórios, desigualdades e escolhas políticas. Quando tratamos a transição ecológica apenas como um novo “assunto” do currículo, colocamos sobre os professores uma carga que ele não pode, e nem deve, carregar sozinho.


O papel do docente não é ser um especialista em clima, mas um mediador de processos de aprendizagem crítica, conectados à realidade local e às vivências dos alunos. Para isso, ele precisa de respaldo institucional, metodológico e emocional.


Sem esse cuidado, corremos o risco de transformar uma agenda necessária em mais um fator de desgaste profissional.


Valorizar quem educa é condição para a transição


Se levamos a sério a educação para a transição, precisamos ir além da atualização de conteúdos. Precisamos investir em:

  • formação continuada de qualidade;

  • espaços seguros de troca entre educadores;

  • reconhecimento do saber pedagógico e territorial;

  • tempo, recursos e apoio institucional.


Não haverá transição ecológica justa sem professores valorizados, preparados e confiantes para conduzir essas conversas.


Educação climática se constrói no cotidiano das escolas, universidades e territórios, a partir de relações de confiança.


Como essa transição tem sido vivida dentro da educação? O que ainda falta — e o que já está funcionando?


🌻 Educação para a Transição 

Educação como infraestrutura da mudança.


Referências e leituras

• Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – Ministério da Educação http://basenacionalcomum.mec.gov.br/

• Lei nº 14.926/2024 – Inclusão de mudanças climáticas, biodiversidade e riscos socioambientais na Política Nacional de Educação Ambiental https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/07/18/lei-inclui-mudanca-climatica-e-biodiversidade-na-educacao-ambiental

• UNESCO – Learn for Our Planet (2021) https://unesdoc.unesco.org/

• UNESCO – Education for Sustainable Development: A Roadmap (2020) https://unesdoc.unesco.org/

• OECD – Teachers and School Leaders as Lifelong Learners (2019) https://www.oecd.org/education

• Instituto Alana – Justiça climática e racismo ambiental https://alana.org.br/

 
 
 

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