Educação para a transição: estamos cuidando de quem educa?
Nos últimos anos, o letramento climático e ambiental deixou de ser um tema periférico para se tornar uma exigência explícita nas políticas educacionais. A urgência é real. A crise climática já atravessa o cotidiano, os territórios e as decisões públicas e privadas.
Mas há uma pergunta que ainda fazemos pouco: como professores, docentes e estudantes estão se sentindo diante dessa nova responsabilidade?
Falo a partir de muitas conversas com educadores, gestores e alunos, em contextos formais e informais de ensino. O que aparece com frequência não é resistência ao tema, e sim insegurança.
O que mudou, afinal?
Letramento climático e ambiental não é apenas aprender conceitos sobre clima, biodiversidade ou sustentabilidade. Trata-se da capacidade de compreender sistemas complexos, relações entre sociedade e natureza, riscos, incertezas e escolhas éticas associadas ao desenvolvimento.
No Brasil, esse movimento aparece de forma clara na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que incorpora a Educação Ambiental de forma transversal e nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental, alinhadas à UNESCO, que desde 2021 reforça a educação climática como eixo estruturante para os sistemas educacionais.
Na prática, espera-se que professores abordem mudanças climáticas, justiça socioambiental, riscos, adaptação e transição ecológica em sala de aula de forma transversal, porém muitas vezes sem terem recebido formação específica para isso ou, ainda, sem o apoio necessário.
Afinal, este é um tema que traz incertezas sobre o futuro, medos sobre o presente e, em muitos casos, pode nos paralisar. Não é isso o que queremos. Precisamos de crianças e jovens preparados para interceder, participar e exercer sua cidadania em busca de soluções práticas e de políticas públicas que reflitam seus direitos.
Acredito que são estas novas mentes que podem trazer respostas relevantes para o presente e para o futuro. E a principal ferramenta para isso continua sendo a escola e seus professores.
Quando olhamos para a realidade das escolas brasileiras, a questão ganha mais profundidade. Pesquisas do Instituto Alana sobre justiça climática e racismo ambiental mostram que crianças e adolescentes que vivem em territórios vulnerabilizados, com menos acesso a áreas verdes, maior exposição a poluição, enchentes ou ilhas de calor, enfrentam também desigualdades estruturais que atravessam o ambiente educacional.
Educação climática, nesse contexto, não pode ser neutra. Ela precisa considerar justiça climática, racismo ambiental e as condições concretas das comunidades escolares. Caso contrário, corre-se o risco de reproduzir as desigualdades que deveria ajudar a enfrentar.
O que as pesquisas revelam sobre quem está na linha de frente.
Estudos internacionais apontam um paradoxo preocupante. Pesquisas coordenadas pela UNESCO e pela OCDE mostram que a maioria dos professores reconhece a importância da educação climática, mas declara não se sentir suficientemente preparada para ensinar o tema com profundidade, segurança e contextualização.
Entre os principais desafios relatados estão:
falta de formação continuada específica
pouco tempo para atualização e planejamento
escassez de materiais pedagógicos contextualizados
medo de simplificar excessivamente ou, ao contrário, gerar ansiedade nos alunos
Entre estudantes, especialmente adolescentes e jovens, cresce também o fenômeno da ecoansiedade, já documentado em pesquisas publicadas em periódicos científicos como The Lancet Planetary Health. Isso exige sensibilidade pedagógica, não apenas domínio técnico.
O risco de tratar a transição como mais um conteúdo
Clima e meio ambiente não são temas neutros. Envolvem conflitos, valores, territórios, desigualdades e escolhas políticas. Quando tratamos a transição ecológica apenas como um novo “assunto” do currículo, colocamos sobre os professores uma carga que ele não pode, e nem deve, carregar sozinho.
O papel do docente não é ser um especialista em clima, mas um mediador de processos de aprendizagem crítica, conectados à realidade local e às vivências dos alunos. Para isso, ele precisa de respaldo institucional, metodológico e emocional.
Sem esse cuidado, corremos o risco de transformar uma agenda necessária em mais um fator de desgaste profissional.
Valorizar quem educa é condição para a transição
Se levamos a sério a educação para a transição, precisamos ir além da atualização de conteúdos. Precisamos investir em:
formação continuada de qualidade;
espaços seguros de troca entre educadores;
reconhecimento do saber pedagógico e territorial;
tempo, recursos e apoio institucional.
Não haverá transição ecológica justa sem professores valorizados, preparados e confiantes para conduzir essas conversas.
Educação climática se constrói no cotidiano das escolas, universidades e territórios, a partir de relações de confiança.
Como essa transição tem sido vivida dentro da educação? O que ainda falta — e o que já está funcionando?
🌻 Educação para a Transição
Educação como infraestrutura da mudança.
Referências e leituras
• Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – Ministério da Educação http://basenacionalcomum.mec.gov.br/
• Caderno Temático “Meio Ambiente” da BNCC http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/implementacao/cadernos_tematicos/caderno_meio_ambiente_consolidado_v_final_27092022.pdf
• Lei nº 14.926/2024 – Inclusão de mudanças climáticas, biodiversidade e riscos socioambientais na Política Nacional de Educação Ambiental https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/07/18/lei-inclui-mudanca-climatica-e-biodiversidade-na-educacao-ambiental
• UNESCO – Learn for Our Planet (2021) https://unesdoc.unesco.org/
• UNESCO – Education for Sustainable Development: A Roadmap (2020) https://unesdoc.unesco.org/
• OECD – Teachers and School Leaders as Lifelong Learners (2019) https://www.oecd.org/education
• Instituto Alana – Justiça climática e racismo ambiental https://alana.org.br/



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